“Vive la différence”. Testámos o original e elétrico DS 3 Crossback E-Tense

“Vive la différence”. Testámos o original e elétrico DS 3 Crossback E-Tense

Um texto da Razão Automóvel a falar do DS 3 Crossback E-Tense. Acompanhe abaixo a opinião do jornalista Fernando Gomes acerca deste automóvel.

 

O DS 3 Crossback E-Tense destaca-se não só por ser elétrico — foi o primeiro no Grupo PSA —, mas também pela sua originalidade estética e aposta na imagem.

Mais do que em qualquer outra proposta do segmento, praticamente tudo no DS 3 Crossback E-Tense submete-se à estética e à imagem, o que acaba por determinar bem mais do que noutros os “vícios e virtudes” do modelo.

Mais do que os seus atributos estéticos — goste-se ou não, distinção não lhe falta —, são as opções estilísticas tomadas pelos designers da DS Automobiles, sobretudo na forma em como afetaram várias questões de caráter mais prático ou de interação com o veículo, que mais captaram a minha atenção.

Assim, ao contrário da larga maioria de outras propostas no segmento, as questões mais práticas ou funcionais parecem ter sido deixadas para segundo plano no 3 Crossback — mesmo no Grupo PSA não faltam propostas que preenchem melhor esses requisitos.

Peculiaridades

Dito isto, as acomodações traseiras são mais que suficientes para transportar confortavelmente dois adultos, assim como os 350l da bagageira são já um valor bem razoável para uma “escapadinha” mais prolongada.

Mas mesmo aqui as peculiaridades do DS 3 Crossback fazem-se sentir. O botão de abertura da bagageira não se encontra onde devia — está ao pé das luzes da matrícula, integrada no para-choques —; e os ocupantes atrás poderão queixar-se da visibilidade, afetada não só pela baixa altura das janelas, como pela forma em que a “barbatana” que marca o perfil do modelo — elemento distinto herdado do DS 3 “carro” — obstrui diretamente o campo de visão.

À frente a originalidade continua e somos brindados com um mix de elementos únicos, diferentes de tudo o que já vimos, e outros mais familiares, partilhados com outros modelos do Grupo PSA — infoentretenimento, painel de instrumentos e até o… porta-luvas.

Um padrão em diamante (losangos) domina o tablier — consola central, saídas de ventilação —, dando-lhe um aspeto único, mas obriga a que muito do resto se submeta a essa lógica estética, nem sempre com os melhores resultados práticos.

Por exemplo, em cada “diamante” vemos vários comandos integrados, sendo a maioria atalhos para várias funcionalidades do sistema de infoentretenimento — onde se inclui a climatização.

Porém, para selecionar um deles, obriga a desviar o olhar da estrada mais tempo que o necessário, assim como temos de ser precisos onde pressionamos (o que nem sempre é fácil num carro em movimento). Isto porque os “botões” são superfícies táteis, sem resposta háptica, e que parecem ter uma área tátil pequena — várias foram as vezes que teve de ser à segunda tentativa.

Atenção ao pormenor

Se as questões estéticas interferem com aspetos de caráter mais prático, por outro, é de salientar a maior atenção ao detalhe deste interior.  Vemo-la na seleção de materiais e em vários apontamentos estéticos (detalhes e padrões), enriquecendo o ambiente a bordo.

Com o nosso DS 3 Crossback E-Tense a vir com o opcional interior de “inspiração” DS Opera, ganhamos os bancos com o padrão tipo bracelete de relógio, que já são uma das imagens de marca da DS. Não só têm excelente aspeto, como também são muito confortáveis.

À nossa volta encontramos materiais que são, na larga maioria, de boa qualidade e aparência, e muito agradáveis ao toque. Sim, sendo um B-SUV, também encontramos outros materiais menos bons e mais… utilitários, mas estão por norma longe da vista e das mãos.

Nota positiva também para a montagem que se revelou robusta, acima da média, equivalente à que encontrei no “primo” 2008.

E-Tense, de elétrico

Não é a primeira vez que o 3 Crossback esteve na garagem da Razão Automóvel; o João Tomé teve oportunidade de comparar dois deles, um com motor a gasolina e outro com motor Diesel. Mas há mais uma opção. O nosso é elétrico dando ao DS 3 Crossback E-Tense mais um motivo para se destacar no segmento — são ainda muito poucas as propostas elétricas num dos mais populares segmentos de hoje.

Aliás, foi o DS 3 Crossback E-Tense o modelo que introduziu não só a plataforma multienergias CMP do Grupo PSA, como foi o primeiro a introduzir a variante 100% elétrica. No entanto, quis o destino que o meu primeiro contacto com esta motorização elétrica acontecesse com o “primo” Opel Corsa-e, com o qual partilha a plataforma e grupo motriz.

É o mesmo motor de 136 cv e 260 Nm, assim como a bateria tem a mesma capacidade de 50 kWh — autonomia anunciada de quase 320 km. E tal como no “novo normal” Corsa deparei-me com uma performance facilmente acessível, com uma entrega mais suave que brusca, e acabei por usar por defeito o modo Sport, o que garante a melhor resposta e, do meu ponto de vista, é o mais agradável de usar.

Sendo o DS 3 Crossback E-Tense maior em todas as direções, assim como algumas dezenas de quilos mais pesado, não é de todo surpreendente que tenha revelado maior apetite. Foi em cidade que obtive os melhores resultados — não admira, dado que existem muito mais oportunidades para recuperar energia —, registando 12-13 kWh/100 km.

Já em estrada aberta, a velocidades estabilizadas de 90 km/h, esse valor subiu para muito perto dos 16 kWh, mas em autoestrada fiquei algo surpreendido pelos 25 kWh registados — um valor elevado. Com um uso regular misto, o E-Tense registou valores entre os 16-17 kWh/100 km, o que augura valores reais de autonomia à volta dos 300 km, bem próximos dos oficiais.

Ao volante

Se há algo que caracteriza a experiência de condução do DS 3 Crossback E-Tense é o conforto e suavidade. É também silencioso q.b., notando-se apenas um zumbido estilo “nave espacial” proveniente do motor elétrico.

Seria de esperar que com as rodas de grandes dimensões — 18” de série no nível Grand Chic da nossa unidade — houvesse maior rumorosidade, mas não. O ruído de rolamento está bem contido, assim como também estão os ruídos aerodinâmicos, à exceção de um mais audível entre o pilar A e o retrovisor.

Este não é o mais acutilante dos B-SUV, mas permite uma rápida progressão, caso estejamos para aí virados. No entanto, favorece um estilo de condução mais suave e progressivo, ou seja, a forma como lidamos com a direção e acelerador.

Revelou-se bastante confortável, mas algumas irregularidades mais graves, ou quando nos deparamos com depressões a velocidades mais elevadas, podem fazer com leve algum tempo a recuperar a compostura, registando-se movimentos verticais a mais por parte da carroçaria.

É o carro certo para mim?

Dado o estilo único, assim como as peculiaridades que dele advém, certamente terá um público-alvo bem mais específico que outras propostas no segmento. Não é tão espaçoso ou prático como outros B-SUV; o DS 3 Crossback E-Tense aponta a um posicionamento mais elevado, onde a imagem ganha primazia, indo de encontro àqueles que procuram algo mais distinto e requintado na forma e conteúdo.

Para lá dessas considerações mais subjetivas, como carro elétrico, tudo o que tem sido dito, de bom e mau, sobre os elétricos, aplica-se aqui.

É caro, principalmente quando existem propostas elétricas de preço similar, como os Hyundai Kauai EV, Kia e-Soul e Kia e-Niro, mas ultrapassam os 200 cv e os 400 km de autonomia. Podem não ter a mesma atenção ao detalhe do 3 Crossback, mas neste ainda limitado universo elétrico, são rivais de peso a considerar.

Costuma-se dizer que a compra de um automóvel, apesar dos valores elevados praticados, costuma ser mais emocional que racional. Bem, no caso do DS 3 Crossback E-Tense, essa premissa encaixa-lhe que nem uma luva.