Indústria automóvel nunca mais será a mesma com carros elétricos e há três cenários possíveis

Indústria automóvel nunca mais será a mesma com carros elétricos e há três cenários possíveis

Estudo da Roland Berger e da Associação Europeia de Fornecedores Automóveis mostra que, mesmo na hipótese mais conservadora, daqui a oito anos mais de metade dos carros já não irão depender dos combustíveis fósseis

 

Em 2030 entre 53% e 82% das vendas de automóveis a nível internacional serão de veículos elétricos. Esta é uma das principais conclusões de um estudo conjunto da Roland Berger e da Associação Europeia de Fornecedores Automóveis (CLEPA, na sigla em inglês). Mas há mais.

 

Os autores daquele estudo formularam três cenários e recomendam medidas que a indústria pode tomar para moldar a transformação do paradigma do sector.

A TRANSFORMAÇÃO DO SECTOR ESTÁ EM MARCHA

“Para os players do mercado automóvel, planear a transição para a eletrificação é um negócio muito complexo porque muitos veículos em circulação ainda terão um motor de combustão interna após 2035”, diz Hasmeet Kaur, sócio da Roland Berger.

 

E acrescenta que “embora os veículos elétricos representem atualmente apenas 0,8% do parque automóvel global, os principais players precisam de se posicionar agora para garantirem o seu sucesso daqui para a frente”.

 

A indústria automóvel tem vindo a passar por uma rápida transformação, segundo o estudo agora apresentado. O documento fala de uma combinação de tendências tecnológicas, mudança de comportamento dos clientes, várias falhas na oferta para a procura existente e de propostas de regulamentação da União Europeia (UE), que só recentemente foi acordada pelo Conselho da UE, e que colocou as empresas sob pressão. Espera-se, segundo a CLEPA, que a eletrificação tenha um impacto maciço nas forças em jogo no mercado de reposição automóvel.

OS VÁRIOS CENÁRIOS

Os autores do estudo desenvolveram três cenários e em cada um deles calcularam os efeitos dos diferentes ritmos de eletrificação no mercado de reposição do parque automóvel.

 

O cenário mais otimista (“Eletrificação Radical”) vê a mobilidade elétrica a avançar rapidamente. Isso faz com que a percentagem de carros elétricos no total de veículos novos abaixo de 3,5 toneladas suba para 82% em 2030 e atinja 100% a partir de 2035.

 

O cenário intermédio (“Transformação Ambiciosa”) é baseado na política e nos objetivos empresariais como eles estão atualmente. Nele, os preços das matérias-primas necessárias para fabricar as baterias deverão estabilizar e será estabelecida uma infraestrutura de carregamento adequada. Como resultado, a participação dos carros elétricos nas vendas totais de veículos cresce para 68% até 2030 e atinge 100% a partir de 2035.

 

No cenário menos otimista (“Conformidade Regulamentar”), o progresso em direção apenas ao carro elétrico é moderado por vários ‘ventos contrários’, incluindo o aumento dos custos das matérias-primas das baterias. A participação dos carros elétricos nas vendas totais de veículos aumenta para 53% em 2030 e 96% em 2035, antes de atingir 99% em 2040.

 

Segundo o estudo da CLEPA e da Roland Beger, o aumento da penetração de veículos elétricos no mercado mudará tanto a importância das várias categorias de produtos no mercado de reposição, quanto a forma de trabalhar das empresas que operam nele.

CARROS ELÉTRICOS VÃO MENOS VEZES À OFICINA

Os autores do estudo analisaram 250 componentes automóveis em 53 sistemas de veículos e concluíram que os carros elétricos acabarão por representar um potencial de vendas cerca de 30% menor no que respeita a componentes tradicionais, em comparação com veículos com motor de combustão interna.

 

As razões são simples: os veículos elétricos são construídos com menos componentes e há menos desgaste no motor, no sistema de transmissão e nos componentes dos travões, entre outros.

 

Para cada um desses componentes, o estudo estima o impacto, tanto negativo quanto positivo, na procura “bruta” no mercado de reposição (excluindo a procura adicional por novos componentes e serviços, como mão de obra em oficinas ou atualizações de software).

 

A fim de mostrar claramente o impacto da eletrificação, o estudo exclui especificamente outros fatores macro, como o impacto do crescimento geral esperado do parque de veículos ou a inflação, e tendências técnicas, como por exemplo os sistemas avançados de assistência ao condutor.

 

No cenário de Eletrificação Radical, prevê-se, assim, uma queda de 12% na procura de componentes até 2035 e de 17% até 2040. Já no cenário de Conformidade Regulamentar espera-se que o impacto seja de uma redução de 13% até 2040.

NOVAS OPORTUNIDADES NO HORIZONTE

Mas, segundo o estudo da CLEPA e da Roland Berger, a eletrificação também abre novas oportunidades ao longo da cadeia de valor para os diversos fornecedores do sector. Os fabricantes de peças, por exemplo, podem mudar o seu portefólio para componentes específicos para baterias, mas também expandir o seu modelo de negócio recondicionando componentes.

 

Outra oportunidade é a oferta de soluções de diagnóstico para apoiar as oficinas, principalmente com o software avançado e gestão de dados de veículos elétricos com novas plataformas eletrónicas e de conectividade.

 

A parceria com especialistas em baterias pode ajudar tanto o fornecedor tradicional de pós-venda quanto o especialista em baterias.

 

“Será especialmente importante para os players do mercado de reposição desenvolver recursos de reparação para sistemas de motores elétricos, eixos eletrónicos e eletrónica de potência”, diz Frank Schlehuber, consultor sénior de assuntos de mercado da CLEPA. E argumenta também que “esperamos ver uma mudança nos serviços de pós-venda de hardware para software. A manutenção preventiva também ganhará relevância, já que a bateria é fundamental para a segurança”.

 

Os distribuidores do retalho poderão ter um papel relevante no contexto da eletrificação automóvel, auxiliando na gestão de componentes em fim de vida, tornando-se fornecedores de materiais reciclados ou oferecendo as suas redes logísticas a novos tipos de clientes. E as oficinas terão a opção de se posicionarem como especialistas em veículos elétricos, aponta ainda o estudo da Roland Berger.